Política é sim assunto de criança

Política é sim assunto de criança

Discussões que envolvem temas como ética e corrupção não só podem, como devem, estar presentes nas escolas

Quando o assunto é política, o Brasil é o segundo país do mundo menos interessado no tema, segundo um relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OECD) divulgado em 2016. De acordo com a OECD, 41% dos brasileiros não se interessam por política, deixando o país atrás apenas da Colômbia. Se temas como política, corrupção e ética não costumam empolgar muito a população por aqui, quando falamos de crianças então, essa pauta normalmente passa ainda mais longe.

Apesar disso, de acordo com a Lei de Diretrizes e Base Comum Curricular (L9394/1996) é papel da escola promover, já no ensino fundamental, o aprendizado da criança tendo os valores éticos, a vida em sociedade e o conhecimento sobre o sistema político como pilares.

Prática

Partindo do princípio de que escola é lugar de ensinar cidadania, e tendo em vista o cenário político nacional, a professora Simone Nogueira de Lima, da EM Michel Kury, aproveitou as notícias sobre corrupção e política publicadas diariamente na Gazeta do Povo para envolver seus alunos na temática e obteve excelentes resultados. O principal objetivo? Politizar os alunos. As práticas, desenvolvidas ao longo de 2017, envolveram valores como a dignidade e a formação do caráter, no ambiente familiar, escolar e na sociedade, embasando futuras discussões sobre as leituras das mídias jornal, telejornal e rádio.

A professora organizava leituras em sala de aula e enviava o material para que houvesse discussão sobre o tema com as famílias dos alunos. Os estudantes retornavam para a escola com uma ficha de opinião preenchida, além de diálogos e pensamentos mais profundos sobre o tema.

Dentre as atividades propostas, os alunos dramatizaram matérias, analisaram charges políticas e auxiliaram na construção de um livro gigante de “contação de história”, para compartilhar notícias. Além disso, as crianças foram protagonistas durante todo o processo de aprendizagem. Produziram um jornal escolar divulgando informações, analisaram e calcularam impostos em cupons fiscais, vendo na prática como os impostos são deduzidos e reaplicados na esfera pública.

As crianças também tiveram a oportunidade de entrevistar a juíza estadual Ana Carolina Bartolamei Ramos, que trabalha nas varas de família e infância de Curitiba, como juíza de direito substituta. A juíza foi até a escola e tirou dúvidas quanto a sua profissão, como sobre o que se pode fazer para mudar leis que privilegiam algumas pessoas e como podemos agir na sociedade para melhorar o país. A turma também se manifestou, fazendo uma passeata anticorrupção junto à comunidade, visitaram a Assembleia Legislativa do Paraná e a Câmara Municipal de Curitiba.

O trabalho realizado por Simone e sua turma ao longo do ano resultou em uma das práticas campeãs do Concurso Cultural Ler e Pensar 2017. Apesar de o prêmio ter sido recebido pela professora, quem saiu ganhando foram os estudantes. “A premiação maior que os alunos puderam obter foi o conhecimento”, contou.